quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Gosto dos textos dela,e esse é sem duvida ,um belo texto.

O Ato de Presentear como Força Comunicacional

by taemchoque

Foto extraída do livro Paranóia de Roberto Piva – fotógrafo Wesley Duke Lee
Introdução
Ainda hoje é possível ouvir histórias de pessoas mais velhas que tinham como hábito levar como presente generoso ao vizinho um pouco da comida que havia feito, fosse um pedaço de bolo ou alguma porção salgada. E o suporte que fora enviado com a guloseima raramente era devolvido ao dono vazio, sempre voltava com outro quitute como retribuição.
Hoje em dia é muito mais difícil encontrar histórias como essa ou ainda pessoas que ainda tenham este costume. As condições necessárias para que se fabrique comunidade se perdeu, hoje vivemos numa multidão de estranhos, o que impede a chance de comunidade se materializar.
Comunidade
Bauman diz que: “a comunidade é um lugar “cálido”, um lugar confortável e aconchegante. É como um teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada, como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado. Lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita; temos que estar alertas quando saímos, prestar atenção com quem falamos e a quem nos fala, estar de prontidão a cada minuto. Aqui, na comunidade, podemos relaxar – estamos seguros, não há perigos ocultos em cantos escuros (com certeza, dificilmente um “canto” aqui é “escuro”). Numa comunidade, todos nos entendemos bem, podemos confiar no que ouvimos, estamos seguros a maior parte do tempo e raramente ficamos desconcertados ou somos surpreendidos. Podemos discutir – mas são discussões amigáveis, pois todos estamos tentando tornar o nosso estar juntos ainda melhor e mais agradável do que até aqui e, embora levados pela mesma vontade de melhorar nossa vida em comum, podemos discordar sobre como fazê-lo. Mas nunca desejamos má sorte uns aos outros, e podemos estar certos de que os outros à nossa volta nos querem bem. (BAUMAN, 2003)
No entanto, “hoje em dia as cidades são conjuntos grandes, densos e permanentes de seres humanos heterogêneos em circulação, lugares em que estamos fadados a vaguear numa grande multidão de estranhos diversos, dessa forma tendemos a nos tornar superfícies para os outros – pela simples razão de que essa é a única coisa que uma pessoa pode notar no espaço urbano com grande quantidade de estranhos”. (BAUMAN, 2003)
O sentido de comunidade se perdeu, as pessoas não sabem sequer o nome do vizinho, quanto mais possuem intimidade para lhe fazer uma surpresa. A contemporaneidade modificou a forma como as pessoas se socializam, o tempo ficou curto, há muito que fazer e a busca por tudo o tempo inteiro faz com que cada indivíduo se enclausure dentro de si mesmo e de seu computador de bolso.
Há um mundo inteiro dentro do computador e a sensação de socialização acontece através das redes sociais, não sendo mais tão necessária a presença física para encontros e conversas. Dessa forma as pessoas estão ficando cada vez mais distantes umas das outras, corpos distantes dissimulando assim a comunicação. A comunicação torna-se cada vez mais fragmentada, assim como a vida dos indivíduos, que se dividem entre trabalho, estudo, família, filhos, amigos, facebook, etc, tudo ao mesmo tempo e agora.
Comunicação
Os estranhos que passam pelas ruas por onde andamos, as “superfícies”, são bem visíveis, estão todos, por assim dizer, ao nosso alcance, e assim podemos afastá-los (por medo) ou procurar formas de manter uma socialização pessoalmente. Está tudo muito volátil, não existe mais a certeza de que “nos veremos outra vez” e por sua vez os vínculos estão ficando cada vez mais rasos e unidos por ligações invisíveis.
Maurice R. Stein em 1960 já afirmava: “as comunidade se tornam cada vez mais dispensáveis....As lealdades pessoais diminuem seu âmbito com o enfraquecimento sucessivo dos laços nacionais, regionais, comunitários, de vizinhança, de família e, finalmente, dos laços que nos ligam a uma imagem coerente de nós mesmos.”
Temos necessidade de nos sentirmos parte de uma comunidade, para termos a noção do que somos. Quando não fazemos parte de um todo, nossa identidade dispersa.
Os mais incomodados e não adaptados a esta rede social tendem a buscar soluções biográficas para essas contradições sistêmicas; é preciso procurar a salvação individual desses problemas compartilhados e por muitos despercebidos. Neste caso pode utilizar-se do sistema de dádivas como mecanismo necessário para constituição de vínculos sociais.
Mauss afirma que o primeiro presente seria uma espécie de “convite a parceria”, uma proposta para que ambos, doador e receptor, entrem em uma relação, em princípio infindável. O presente dado como retribuição como um “novo primeiro presente”, o qual, ao invés de “quitar” a primeira oferta (como na lógica mercantil), expressa uma aceitação da relação e exige, por sua vez, uma nova retribuição, lançando doador e receptor em um movimento eterno de dádivas e contra dádivas.
Mauss, em seu “ensaio sobre a dádiva” afirma que as coisas dadas seriam “animadas” portando algo do doador mesmo que afastadas dele. Assim, as almas estabeleceriam vínculos entre si por meio de coisas trocadas: “disso segue que presentear alguma coisa a alguém é presentear algo de si.” Essa “virtude” que Mauss afirma existir, é segundo ele o que força a circulação dos presentes.
Na troca há algo mais do que coisas trocadas, pode haver um processo de formação de grupo, pois permite escapar a tensão provocada pela coexistência entre a “norma da solidão” e o “fato da comunidade”, instaurando um clima de cordialidade em substituição a indiferença. A retribuição neste caso pode gerar pequenos vínculos sociais, entre as quais uma conversa, além da condição de philia, que são saberes e comportamentos compartilhados.
Além disso, o presente pode ser utilizado muitas vezes como início de uma comunicação. O sentido do presente pode ser uma proposta de estabelecimento de um vínculo entre doador e receptor, porém seu significado só se concretiza na reação do receptor, ainda que sob a forma de uma recusa. Essa análise da reação suscitada para a compreensão do sentido do ato de presentear pode ser considerada já uma retribuição.
Como o sistema de dar e receber não segue exatamente as regras de obrigatoriamente haver retribuição, o ato de presentear deveria ter inicio em algo espontâneo e desinteressado. E o intervalo entre a dádiva e a retribuição juntamente com a incerteza da retribuição completam-se para diferenciar a dádiva do escambo.
O Objeto – O Presente – A Dádiva
Os objetos podem “ser inúteis do ponto de vista da sobrevivência se forem “abstratos”, características que seriam uma condição para que esses objetos servissem de suportes materiais de projeções imaginárias, podendo “materializar” relações sociais e sistemas de pensamento. (Godelier apud COELHO, 2006)”. O objeto doado pode ser entendido como uma forma de manipulação de impressões, como um recurso utilizado para criar uma determinada representação de si.
O presente pode no seu sentido estrito, ser realmente um espelho: as imagens que devolve podem apenas se suceder sem se contradizer. É um espelho perfeito já que não emite imagens reais, mas aquelas desejadas.
Sendo um objeto considerado único no sentido de ser criado (e este momento da criação é irreversível) pensando em uma pessoa, um suplemento de aura e alma deve emanar dele. Em tempos pós-modernos este objeto pode ser copiado idêntico ao original, porém o valor de vínculo, descrito por Godbout, que é o que vale um objeto no universo dos símbolos, seria o que predominaria no ato de presentear.
Segundo Baudrillard todo objeto tem duas funções: uma que é a de ser utilizado e a outra é a de ser possuído. O fetiche pela idéia de posse pode nascer da fascinação pelo objeto artesanal e pelo fato de ter passado pela mão de alguém cujo “trabalho” ainda se acha nele inscrito.
Os objetos recebidos guardam a aura da criação e essa força do aqui e agora fica impressa no objeto. Quando um presente é ofertado, a força que há na coisa dada produz imagens que tem função de trazer alguma coisa a memória. Dessa forma, mesmo que o vínculo não prossiga, as lembranças boas ou más permanecerão por algum tempo.
A memória, sem dúvida, tem algo a ver não só com o passado, mas também com a identidade e assim, com a própria persistência no futuro (ROSSI, 2010).
A escolha de um objeto específico como uma forma de tradução de afeto insiste na lógica de fazer-se presente na vida do outro através de um objeto ofertado, nem que seja somente na lembrança.
O objeto não é uma simples escolha de coisas, ele é uma tela do parecer cujo propósito consiste em entreabrir, em deixar entrever, graças ou por causa da sua imperfeição uma possibilidade de além sentido. Sentido que o receptor lhe atribui.
Considerações Finais
Com a degradação do sentido de comunidade, como se introduzem valores transcendentes nos comportamentos cotidianos? E como podem eles ser integrados? Como buscar novas alianças não se valendo do meio virtual?
Ressignificando objetos gastos que nos rodeiam? Ressignificando relações intersubjetivas esgotadas ou prestes a ser? Ressignificando a vida, trocando os signos por gestos?
O presente realiza, assim, sua vocação de ser uma gentileza, um carinho, ou um afeto e o valor pode ser construído pelo afeto implícito no ato de doar e pelo uso feito pelo receptor. O presente já é o afeto envolvido no gesto da doação e este é o seu valor.
O sistema de dádivas pode ser um bom caminho para (re)pensar a natureza da vida social, afinal os objetos dados e recebidos apresentam a capacidade de funcionar como veículo para expressão individual, comunicando emoções e elaborando imagens dos indivíduos envolvidos na troca. Os presentes podem ser um recurso utilizado para falar de si, do que sentem, de como se vêem, de como querem ser vistos, de como iniciar uma relação comunicacional afetiva afastando-se dos mecanicismos das relações.

Referências Bibliográficas
BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. - São Paulo: Editora Perspectiva, 1968
BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Tradução Plínio Dentzien. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003
BENJAMIM, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica
COELHO, Maria Claudia. O valor das intenções: dádiva, emoção e identidade. - Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.
GREIMAS, Algirdas Julien. Da imperfeição. Tradução Ana Claudia de Oliveira. - São Paulo: Hackers Editores, 2002
MATOS, Olgaria C.F. Benjaminianas. - São Paulo: Editora UNESP, 2010
PIVA, Roberto; LEE, Wesley Duke. Paranóia. - São Paulo: Instituto Moreira Salles e Jacarandá, 2000.
ROSSI, Paolo. O passado, a memória, o esquecimento: seis ensaios da história das idéias. Tradução Nilson Moulin. - São Paulo: Editora UNESP, 2010

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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Lenda das Palhetas Mágicas


(junho 8, 2012 por taemchoque )


Há algum tempo atrás, além de meu pai me contar uma história reveladora ele ainda me entregou um saquinho com umas coisinhas coloridas dentro.
Bolsinha passada através de gerações !
Na época eu não sabia ao certo o que fazer com aquilo e confesso que fiquei um tanto assustada com a revelação que ele me fez.
Ele me contou que aquele saquinho havia passado por algumas gerações da nossa família, mas que nenhuma das pessoas que o recebeu soube claramente o que fazer com ele e por insegurança, o máximo que fizeram, foi passar adiante para as próximas gerações.
Eu era pequena, não entendia direito o valor que aquela revelação tinha, e só guardei o tal saquinho até pouco tempo atrás porque eu adorava colecionar coisas pequenas.
A revelação assutadora era que ali dentro daquele saquinho havia palhetas mágicas !!!!!!!!
Elas foram criadas por um mago que vivia em uma floresta longínqua e sem muitos habitantes. O Mago, chamado Péricles, as criou para preservar o que havia descoberto de mais importante em matéria de mágica e felicidade.
Destes poucos habitantes que conviviam com o Mago Péricles, um deles conhecido como Azhy, era muito invejoso e tinha pouca capacidade de raciocinar. Então ao invés de tentar aprender com o Mago, achou mais fácil destruí-lo, pois acreditava-se que matando algum ser vivo, todos as suas qualidades eram transferidas automaticamente.
Mas como o Mago não era bobo nem nada, decidiu transmitir toda a sua sabedoria, conhecimento, qualidades, inteligência, e o mais importante: suas mágicas e suas descobertas a respeito da felicidade em 3500 pedaços de plásticos coloridos que eram utilizados como brinquedo educativo para as crianças da aldeia.
Foi uma escolha muito bem pensada, já que Azhy era avesso as crianças, pois a felicidade e alegria que elas imanavam espontaneamente o deixavam bastante agressivo e inconscientemente mais invejoso. E com essa aversão às crianças, ele nunca chegaria perto destes brinquedos especiais.
E assim os dias foram passando até que Azhy conseguiu realizar seu feitio de destruir Péricles. No entanto, como Péricles já esperava por essa maldade, criou uma mágica para que assim que seu coração parasse de bater, Azhy se transformasse em um pássaro imortal. Dessa forma não conseguiria fazer mal a mais ninguém…..
Meu pai disse que até hoje podemos nos deparar com o Azhy, mas nunca saberemos que é ele, pois as informações quanto as características dele foram se perdendo no tempo, a única coisa que ele sabia era que o pássaro ficou da mesma cor dos brinquedinhos mágicos.
Depois de algum tempo o que foi verificado pelos mais velhos é que aqueles plastiquinhos coloridos tinham algo de especial, pois a medida em que as crianças iam crescendo não conseguiam se desvencilhar daqueles brinquedos. E quando ficavam algum tempo longe, uma tristeza sem motivo e sem tamanho tomava conta delas.
A fiha de Péricles, Teja, ouvindo isso, recolheu todas as palhetas e as guardou em um lugar bem escondido. As crianças ainda perguntaram pelas palhetas por algum tempo, mas logo esqueceram, afinal estavam em idade de casar e neste caso, somente o amor verdadeiro pode suprir o bem-estar causado pelas palhetas.
E assim como o destino impôs, um dia, ela conheceu um caçador e se mudou da aldeia sem deixar para trás aquelas misteriosas palhetas.
Certa vez, quando retornou a aldeia encontrou sua mãe já muito doente, nesta ocasião ela lhe contou a lenda das palhetas mágicas e pediu para utilizá-las somente em uma ocasião especial. Pediu para manter todas juntas. pois assim a felicidade estaria completa e sempre com ela. E lembrou-a de que somente um verdadeiro amor poderia trazer uma felicidade maior do que a passada pelas palhetas mágicas. Ela também explicou que as palhetas sozinhas manteriam o efeito de bem-estar, porém em menor intensidade. Para que uma sozinha funcionasse adequadamente seria muito simples, era necessário somente deixá-la próxima do corpo para que a felicidade fosse contagiante. Ela também disse que as pessoas mais tristes são atraídas por ela, mas isso foi pensado pelo Mago Péricles, porque ele sabia que quem está triste não tem vontade de fazer nada. E com essa atração, a pessoa ao se aproximar das palhetas, a felicidade aconteceria sem ela perceber.
E assim foi o que aconteceu: Teja as manteve sempre unidas e assim passou para o seu filho. Seu filho no entanto, casou-se cedo e no amor encontrou toda a felicidade e guardou para seu filho. Seu filho Thomáz era o meu avô. Ele as manteve sempre juntas até passar para o meu pai que então passou para mim.
Eu ja tinha a idéia de passar adiante essas palhetas, separá-las e multiplicar a felicidade entre as pessoas. E quando surgiu o concurso da Vivo, pensei: É agora a chance de transmitir a felicidade para essas pessoas tristes fruto deste caos urbano.
Eu já não precisava dessas palhetas há algum tempo, afinal já tenho o amor verdadeiro para suprir toda minha necessidade de felicidade.
Levei a idéia adiante e enviei o projeto para VIVO e quando fui selecionada, enorme foi minha alegria. Então, para que ninguém percebesse, foi gravado o nome de uma marca famosa de instrumentos musicais, já que as palhetas que eu possuia eram bem parecidas com as palhetas atuais utilizadas para tocar guitarra.
Finalizei o projeto e me sinto grata de a felicidade estar sendo transmitida !!!

Conheçam o projeto aqui. O meu orelhão é o número 50.
Pegue a sua !!!
É certo que o meu orelhão está ficando cada vez mais feio, desfalcado de palhetas, mas por outro lado, a felicidade está sendo emanada pela cidade de São Paulo.
Mantenham as palhetas próximas ao corpo e sinta a felicidade que foi transmitida às palhetas há muito tempo !!!
Se ainda não pegou a sua, corra até a Av. Paulista, 2073 – em frente ao Conjunto Nacional e retire a sua cota de felicidade……



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